Dia: 12 de Julho de 2019 | 14h-19h
Local: Faculdade de Motricidade Humana – Anfiteatro 1
Título do Módulo de Seminário:
As danças e os corpos na educação… no Brasil?
Descrição detalhada:
Os séculos XX e XXI nos trouxeram inúmeras in-certezas e configurações para a nossa vida mais ou menos mundana. No mundo da dança, podemos observar uma proliferação de propostas estéticas, poéticas e éticas que se concretizam em corpos mutantes, cada vez mais dissociativos, singulares e múltiplos. Neste processo, vagamos da pop art à arte conceitual, e na dança esta errância nos catapultou, talvez, para territórios de abandono das ontologias (ser expressão ou movimento) para o aconchego das axiologias (o que uma dança pode fazer) (SABISCH, 2011). Ao se propor a estudar criações como Self-unfinished e Product of circunstances do francês Xavier Le Roy, Sabisch (2011) coloca-se a seguinte questão: “Quais são as premissas metodológicas para se conceituar as transformações qualitativas de uma coreografia (e num sentido amplo performances) sem reduzir a singularidade de uma obra de arte a categorias pré-estabelecidas” (SABISCH, 2011, p. 84). Procurando investigar esta outra dança a partir de seus elementos intrínsecos, Sabisch propõe-se a estabelecer uma escavação profunda nas entranhas de criações de artistas da dança que têm circulado amplamente do cenário dos eventos artísticos de dança. Afastando-se das categorias pré-estabelecidas, a autora irá apontar para dois conceitos mediadores do seu encontro com a coreografia desses artistas, quais sejam: contaminação e articulação. A contaminação, como um ambiente relacional não hierárquico (o rompimento com as dicotomias), aponta para a dissolução da dança como experiência cinestésica ou como contexto de significados. Esta condição indica um outro sutil deslocamento no entendimento e na feitura das danças contemporâneas, o do rompimento com a representação como o lugar das suas possíveis axiologias. Por sua vez, a articulação, como possibilidade composicional em uma coreografia, aprofunda ainda mais este deslocamento. Ao coreografar, não estamos a desvendar, expressar ou representar pensamentos, movimentos ou tensões, mas sim estamos a compor redes de relações que contêm, em si, o seu contrário e que emanam com, no, para e a partir do corpo. Contudo, é necessário re-informar que ao deslocar a ontologia para a axiologia, o movimento para o corpo, a representação para as conjunções e as segmentações, a autora o faz por dentro das danças com as quais nos deparamos hoje em diferentes ambientes e países em teatros, mostras e festivais. E como estes deslocamentos, danças e procedimentos penetram os corpos das danças nas escolas?
Nesta conferência, vamos explorar algumas experiências e autores que têm nos acompanhado nas ações com esses deslocamentos descritos acima. Larrosa Bondía (2002) nos desafia a pensar a educação não mais a partir do par ciência e técnica, que se propõe a formar cidadãos que aplicam eficientemente as tecnologias educacionais propostas pelos especialistas; ou mesmo do par teoria e prática, a qual implica a formação do sujeito que reflete criticamente sobre a educação e a escola. Em seus lugares, o autor nos oferece a possibilidade de pensar a educação numa perspectiva existencial e estética, ou aquela que se fundamenta no par experiência e sentido. A educação como experiência é processo e produto simultaneamente, que abandona as teleologias que se estabelecem na técnica, na crítica/emancipação, na autonomia, ou na eficiência. Assim entendida, a educação como experiência coloca-se a prova do seu próprio princípio, qual seja: ser discurso pedagógico que se submete às potencialidades dos textos, no nosso caso, dos corpos contemporâneos na vivência das danças contemporâneas.
E assim propomos-nos a investigar como a educação como experiência atua com:
- A Mangueira (escola de samba) quando canta, desfila e dança e é campeã do carnaval do Rio de Janeiro de 2019: “Salve os caboclos de julho / Quem foi de aço nos anos de chumbo / Brasil, chegou a vez /
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”; - O presidente eleito de extrema-direita que divulga em sua rede social, durante o período de carnaval, uma imagem de golden shower que é seguida por um manifesto dos artistas que o produziram e parece conseguir silenciar, temporariamente, o presidente nas redes sociais, pois este é estatisticamente reprovado, em sua atitude, pela população. Talvez essa tenha sido a única derrota midiática do presidente até agora. Todos os seus outros excessos têm-lhe sido permitidos, até mesmo afirmar que o nazismo foi um movimento de esquerda.
- MC Xuxu canta “Eu fiz a chuca” no seu clipe, Anitta lança seu CD em Los Angeles com contagem regressiva no Spotify em Santiago, Salvador e Bogotá, e lhe perguntam qual é o seu nome. E ela vestida em roupa colante de estampa de onça diz: é Anitta amor, é só olhar a sua volta, tá em todo lugar.
- As “Batalhas” (forma de atuação das danças do hip hop), nas quais as meninas do passinho e do hip hop, e não somente, “chegam chegando” (refrão de música da Ludmila, cantora de funk que leva 1,2 milhão de pessoas às ruas do Rio de Janeiro, durante a passagem do seu bloco de carnaval – o Fervo da Lud). Interseccionalidades, pós-colonialismos, feminismos e “transgredismos”, os corpos que povoam essas imagens parecem-nos produzir transindividualidades que nos insultam (pulam no nosso pescoço) e atualizam-se a cada performance. Aqui não se trata de nomear, escrever ou perguntar o quê, ou quem são esses corpos, mas quem sabe atuar com o como estão elxs e como estamos nós ao mesmo tempo com elxs, nelxs e para elxs nas escolas? Comecemos…
Modelo de organização do módulo
Esta conferência insere-se nas atividades do polo do INET-md na FMH. A sessão, a decorrer a partir das 14h, será através de apresentação de imagens, músicas, preleções.
O modelo de avaliação recorre à presença registada.
Prelector: Adriana de Faria Gehres
Possui Licenciatura em Educação Física pela Universidade Federal de Pernambuco (1988), Licenciatura em Dança pela Faculdade de Motricidade Humana (1999), mestrado em Educação pela Universidade Federal de Pernambuco (1994) e doutorado em Curso de Doutouramento em Ciências da Motricidade Humana pela Universidade Técnica de Lisboa (2002). Professora Adjunta da Universidade de Pernambuco. Pesquisadora do Grupo Ethnós/ESEF-UPE (Grupo de Estudos Etnográficos em Educação e Educação Física), Pesquisadora Colaboradora no INET-md/Universidade de Aveiro, Universidade Nova de Lisboa, Universidade de Lisboa e Instituto Politécnico do Porto (Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos em Música e Dança) e membro do Grupo de Pesquisa em Educação Física Escolar (GPEF) da Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Educação Física, com ênfase em Dança, atuando principalmente nos seguintes temas: dança, educação, educação especial e corpo. Atualmente desenvolve estágio de pós-doutorado na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Foi coordenadora do Festival de Dança de Recife e atuou como assessora de dança da secretaria de cultura do Estado de Pernambuco. Publicou o livro Corpo-dança-educação na contemporaneidade ou da construção de corpos fractais e tem publica artigos e capítulos de livros sobre dança e educação.